Thursday, October 11, 2007

O painel eletrônico

Quarta-feira, 19h00. Noite quente, laranja (como sempre) e carregada na cidade. Perto de um tilt no sistema de transportes urbano, os (pseudo)paulistanos ficam presos entre o vir e o ir. No túnel Ayrton Senna, um carro prata ruma à região do ABC por um caminho alternativo ao usual, na tentativa - frustrada, obviamente - de chegar mais cedo. Apesar dos veículos se moverem sofregamente a 25 km/h, um painel eletrônico indica a velocidade máxima permitida: 70 km/h.

- Filha, você não acha um desperdício esse painel? Ao invés de eles colocarem alguma mensagem útil, do tipo “trânsito lento no túnel Ayrton Senna”, “desligue o motor caso haja congestionamento” ou “abra o guarda-chuva ao passar embaixo do Lago do Ibirapuera”, ficam nessa brincadeirinha besta de fazer passar vontade.

Observei melhor o painel. Eu escreveria “lavem suas ramelas de manhã” ou “durmam pelados essa noite”. Muito mais útil.

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Sunday, October 7, 2007

Fragmento

- Sabe o que é ficar cego? É você ver tanto uma coisa, mas tanto, que você não consegue ver mais nada. É uma imagem sozinha te enlouquecer tanto que é como se o resto do mundo desaparecesse naquela hora, porque o resto mesmo não importa mais. Eu não quero ficar cego.

- Então não me deixa te cegar.

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Thursday, October 4, 2007

would you erase me?

- E se você pudesse me apagar? Hein, me diz? Que nem naquele filme…Você me apagaria? Você me apagaria pra nunca mais sentir nostalgia de brincar na grama? Você me arrancaria do seu cérebro pra sempre, mesmo sabendo que daí você nunca mais ia saber o que você realmente procura? Que você não riria do mesmo jeito nunca mais? Que você não sentiria mais frio nenhum na espinha quando caísse uma chuva forte? Nem ia saber a sensação de se jogar mesmo jurando um segundo antes que nunca mais tiraria os pés do chão? E se você nunca mais soubesse o que é ter o dia consertado por um sorriso só? Você me apagaria mesmo assim? E se…

- Eu tenho um BRANCO, entende? Um branco. Todos os “e se”s e reticências foram parar em um universo em que eu não existo.

Levantou do chão onde conversavam e foi embora pensando “Puta pessoa esquizofrênica!”, sem saber se falava sobre a outra ou sobre si.

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Thursday, September 27, 2007

Cry me a river

Nunca acreditei no clichê “o que vale é a intenção”. Não vou nem apelar pra outro clichê e dizer que “de boas intenções, o inferno está cheio”. É que me bateu na mente que só os resultados finais importam.

É a mesma coisa com os sentimentos. Os sentimentos não valem de nada. Só valem as escolhas que você faz e as conseqüências das suas escolhas. Os sentimentos são só ferramentas de retórica de uma das vozes do seu cérebro durante uma discussão interna sobre qual caminho seguir numa bifurcação.

Escolha e resultado final.

E a saudade virou ausência. E depois, a ausência vira vazio. E o vazio vira inexistência, negação de tudo num espaço temporal relativamente distante ou perto. Mas é tudo escolha e conseqüência, ação e reação, sem importar as motivações.

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Monday, September 3, 2007

A chuva do carro

 Summer is gonna take the pain away. Ficava repetindo isso na minha cabeça, como se, com isso, a frase viraria verdade e faria sentido para mim. Todo dia de manhã, em frente ao espelho, era a mesma coisa. É que uma vez me disseram que era tudo coisa da mente, se a gente controla a mente, controla tudo a nossa volta. E eu mal conseguia controlar o que se passava por dentro.

Veio o verão e o sol brilhando forte só machucava as lembranças. E eu queria tirar todas elas de mim e atirá-las ao sol para que elas secassem, desidratassem, se desintegrassem, sumissem no ar. Mas não. O céu azul e límpido não era a solução dos meus problemas e eu não possuía uma Lacuna Inc. para resolvê-los por mim.

Foi só quando chegaram as chuvas…

Era só dia de rir, não de me esconder embaixo de um guarda-chuva cor-de-rosa. Mas vieram aquelas gotazinhas das nuvens cinzas: maldita gravidade, sempre. Só que domingo era bonito de novo e o dia seguinte e o dia seguinte e o outro. E a chuva dentro do carro, de repente, lavava e levava tudo embora. A chuva de dentro do carro curava de dentro pra fora e, pela primeira vez, “você estragou tudo” era dito num sorriso.

E setembro chegou, como chegavam sempre os fins de semana. E não cai mais choro da chuva e não cai mais choro de mim. E setembro faz o mundo espelhar toda a cura em flores amarelas que caem, não do céu, mas do alto também. Então eu vejo que não preciso que o mundo gire rápido: quero ele devagar pra eu sentir bem cada palavra. Quero o tempo devagar, quase parando, pra eu nunca perder uma franzida de testa. Quero faróis no vermelho e abraços que me acordam de madrugada enquanto eu durmo. Quero um monte de besteiras ditas sem pensar e achar que a cada estupidez o mundo vira um lugar mais doce e colorido. E a gravidade não é mais maldita porque sem ela os balanços nem existiriam…

This is fact not fiction for the first time in years.

Obs: Já que tudo que eu escrevo você acha que é verdade, deixo essa verdade escrita pra você.

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Wednesday, August 29, 2007

Perfect Ending

Era dia de jogar coisas fora. Já que era para limpar a vida disso tudo que fosse de uma vez só. Se era para limpar a mente, tinha que começar pelo quarto em que estava. E só com a mente livre, ele teria forças para limpar também a alma que ficaria toda ensangüentada depois de arrancar violentamente um sentimento todo enraizado, já parte dele.

Pegou a maior caixa que encontrou, apesar de pensar que não teria muita coisa concreta que a preenchesse. Boa Noite e Boa Sorte, Laranja Mecânica, Oasis e seu ingresso, violão, camiseta com cores descombinando do ano anterior, cartazes de festas, números de telefones, palavras - tantas!, Guimarães (com dor no coração), Brilho Eterno, Von Trier, Nutella, Calvin, Saturno e suas luas, Argentina, Mellon Collie and the Infinite Sadness, Sul, festa junina, abraços muito longos, conversas muito tensas, saudade muito forte. Lágrimas, um monte delas. Talvez houvesse mais sorrisos, mas ele atirou todos que na caixa, sem olhar nem pensar duas vezes.

Quando colocou a tampa, sentiu a vista embaçada e a garganta enozando. Respirou fundo e tampou também o local em que todas as imagens nostálgicas estavam guardadas dentro dele. Pegou a caixa, desceu as escadas com o maior peso do mundo nos braços. Foi até o quintal, jogou álcool e fósforo. Tudo queimou e queimou até o fim, como deveria ter feito com esse sentimento logo que ele nasceu. “The perfect ending for this piece of shit story”.

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Sunday, August 26, 2007

Abrindo espaço pro Carlos falar

Se pudéssemos não seríamos um problema social

Desculpem-me as mulheres, mas vocês são muito trouxas. É o cúmulo do absurdo sofrer por causa de homem. Nós não temos mistério nenhum. Já é sabido que quando pedimos o telefone ao despedir, na verdade estamos dando um “adeus”; quando dizemos “adoro passar o tempo contigo”, queremos dizer “não dá mais”; e a mais clássica e íntima de todas, quando dizemos “não quero que nada mude entre a gente”, estamos, sem dúvida, assinando o termo de compromisso do final supremo de uma relação.

Para quê, então, tremer as pernas quando aquele carinha passa? Vocês não se cansaram desse sentimento bobo - tá, eu confesso que é gostoso sentir um friozinho na barriga - que, no final das contas, só faz mal? Suas ações beiram o absurdo. Perseguição. Causo de polícia. Outro dia escutei de uma amiga: “Se uma menina se apaixonar por você, cuidado, ela já sabe tudo da sua vida. Nós somos assim”. Por que vocês são assim?

Parece que uma mulher apaixonada se torna assessora de imprensa do objeto amado, secretária dos encontros que nunca acontecerão, cozinheira do jantar que ele terá com outra, camareira do quarto de motel em que ele um dia dormiu, acompanhado. E, ainda assim, vocês gostam. Estranho. Gostar de sofrer. Sei lá, não acho que valha a pena.

Com a modernidade e proximidade que vocês não têm, até o Orkut já virou ferramenta de espionagem. Tenho certeza que entram na página do seu Brad Pitt de quinta categoria mais vezes do que na sua própria. Não duvido nem que sejam capazes de, mais do que dar conta dos “scraps” dele, saber a ordem das pessoas que lhe escreveram. Até ciúmes de quem aparece com certa freqüência vocês desenvolvem com o tempo; chegam a não gostar daquela melhor amiga que tem a intimidade que você sempre quis. Mas você sabe, o máximo que terá é o MSN dele, em que provavelmente estará bloqueada.

Mesmo quando a mina que está pegando o garoto te diz, sem saber dos seus sentimentos por ele, que ele beija mal e não tem pegada, é certo que você não vai desistir, talvez queira até mais. Loucura. Dessa maneira você se sente perto dele, e isso já basta, é o suficiente. Vício.

Meninas. Mulheres. Vocês não têm dó dos seus amigos que SEMPRE escutam o mesmo assunto. Eles também têm problemas, sabiam? Vocês não se cansam de achar que TODAS as músicas foram feitas para você e para o seu amor platônico? de achar que se estivessem naquele lugar a tal hora teriam encontrado com ele e, não se sabe por quê, naquele dia, ele iria reconhecer o amor que só vocês sabem que existe - ou acham que sabe? Fiquem tranqüilas. As oportunidades que vocês acham que perderam na verdade nunca existiram! Parem de construir um futuro que não lhes pertence, de viajar enquanto tomam banho num final de semana perfeito com o Fulaninho, numa balada irada com o Beltraninho, numa transa fenomenal com o Ciclaninho. Vocês sofrem muito não gostando de gostar e fingindo que gostam de não gostar.

Patético é encher a cara para afogar as mágoas. Eu sei, todo mundo, inclusive os homens (essa classe de homens compreende os cornos) já o fizeram por uma vez, mas isso não faz com que seja menos patético. Daí você bebe, fala alto para a pessoa escutar, dança diferente para a pessoa ver, ri descomunalmente para mostrar que é feliz. Talvez você seja feliz, mas naquele momento só é dependente. Confesse! Você preferia que ele não estivesse presente, mas já que está, aproveita para vender o seu peixe. Mentira, você queria, sim, que ele estivesse presente. Burra! Outra situação tal qual essa é assistir àquele filme que sempre te faz chorar. Já o assistiu até de trás para frente, mas assiste de novo com um pacote de Doritos grande e uma caixa de Bis Branco ao seu lado. Gorda! Normalmente, pede uma pizza antes, ou vai comer sorvete depois. Previsível. Clichê. Você chora mais por obrigação do que por querer, sente falta disso. Estúpida! Ao menos, no final do filme você está melhor, divertiu-se da maneira que gosta. Apesar de tê-lo colocado para lembrar de como a sua vida amorosa é triste, no final nem lembra mais do filha da puta que te faz sofrer.

Agora, para nós, os homens: se você vê que aquela menina não larga do seu pé, que está dando em cima descaradamente, não a fique administrando. Coitada, ela se entregou e é assim que você a agradece? Eu sei, eu sei que algumas não largam do pé nunca, mas eu sei também que nós gostamos de ter um step. Não façamos mais isso. Deixemos elas sofrerem por conta própria. Nem sempre é nossa culpa.

Mea culpa.

“Ô! Carolina eu vou amar você … … Não temos tempo, então melhor deixar pra lá”

(Carlos Giffoni)

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Guimarães

“Cê vai,

Ocê fique,

Você nunca volte.”

Porque o que tenho pra dizer é palavra de outra pessoa já.

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O que eu não queria escrever (Pt.1)

Ela subiu correndo pelas escadas os oito andares até seu apartamento. A ansiedade era grande demais para esperar o elevador, grande demais para esperar qualquer coisa. O ar entrava difícil e preenchia os pulmões de uma angústia gigantesca. “Nossa amizade ou é cruel ou é inexistente”. Realmente, não podia. “Mas eu queria tanto jogar tudo pro alto agora e fugir pra Saturno…Juro que nem fazia questão do pote de Nutella”.

Não fazia questão de nada. Era ela e ele, ele e ela, como se os últimos doze infinitos meses nem tivessem existido. Foi uma lacuna ruim do tempo. “Tenho muito medo. Fiquei covarde por você”. Nunca lhe faltou coragem, mesmo quando os joelhos bambeavam e as mãos tremiam. Mas naquela noite, sob a sombra invisível daquela árvore, faltou palavra e faltou impulso. De novo não podia. Mas era como um dado que sempre caía com a mesma face para cima, como um baralho que sempre mostrava a mesma carta, como o universo conspirando e rindo. Não era pra ser porque pra sempre ia explodir o mundo se acontecesse outra vez.

Ela jogou o corpo na poltrona, largou o peso que parecia maior do que nunca. Precisava de um só trago e de um só gole. Um último beijo, juro que ia ser o último e pronto. Mas quanto mais ela se repetia a mentira, mais tudo ganhava forma e virava verdade ao contrário. Aquela força só dormia, não estava morta. Nunca esteve. E acordou de volta e tomou conta de todas as células e cada poro da pele sentia falta de um único toque e de mais nenhum. Tem coisa que dói mais que uma saudade na presença? Aquele abraço sufocante que me transporta pra qualquer lugar em que nada de ruim jamais aconteceu.

Reuniu suas últimas energias para ir até a garrafa de vodka. Guardou a bebida na mala junto com as poucas roupas que tinha escolhido levar. As que traziam outras lembranças ficariam para trás, como todas as fotografias. “Deveria ser simples: um gosta do outro e tudo fica bem. Por que tem que ser desse jeito todo?”. Porque ele tinha feito uma escolha e a escolha dele se distanciava dela. Mas eu ainda trocaria o chão por uma mordida na bochecha.

Numa última tentativa de acertar as coisas, ela apertou o botãozinho em sua nuca, abriu a portinha da cabeça e tirou de lá de dentro todas as peças do quebra-cabeça recém-desmanchado. A metáfora certa tinha que estar ali. Mas era tanta coisa pra ser dita que nunca tinham inventado palavra praquilo tudo.

Mas um beijo só e juro que vou embora depois…Mas nunca acaba ali.

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Tuesday, August 21, 2007

A cidade e a libido

A cidade gira rápido. As luminárias fazem desenhos de linhas e curvas em espirais que revertem o silêncio. As luzes gritam aos olhos e nem o brilho vermelho é mais capaz de fazer parar. Ninguém dorme ou é um sono constante, um sono, um sonho psicodélico em preto e branco? Não, têm cores. Principalmente laranja, assim, à noite. Quando o Sol vem, é cinza. Quando o sol não vem porque o céu é cinza, os rostos e olhares cinzentos o refletem.

A cidade corre em oito, corre no infinito, dentro e fora do simbólico. A cidade se perde e se acha de novo, se perde e traga todas as mentes e arrasta todos os corpos. Num efeito radioativo, contamina no caótico. Era oito, infinito, vira círculo. Círculo, ciclo, tudo vicioso. Tudo é vício apaixonado, difícil demais para largar sem insônia. Num último trago, o beijo de despedida. Num último beijo, o gole final de absinto. O abraço é precipício, o sorriso é um corte no pulso. Os passos aproximam a overdose nas tardes bonitas e na noite laranja. Os corpos se perdem no infinito e nunca se acham ou isso já é a contradição?

A cidade vai em círculos e rodamoínha todas as mentes, fazendo virar fumaça. A densidade vem e os olhos se sentem saramaganos. Mas olha: dá quase para tocar essas nuvens que caíram. Mas se as mentes sobem, o infinito atinge a terra. O caos cai e a cidade chove e as gotas formam retas paralelas. E os lábios, que paralelos nunca se encontravam, se acham línguas, braços, pernas - corpo inteiro - e viram supernovas no infinito, onde minutos são só fôlegos que se perderam numa cama.

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