“Aretha, Sing One For Me!”
Aquilo me despertou do meu quase-nirvana e passei a reparar nela: seu par de All Star listrados, sua blusa branca que deixava as alças do sutiã roxo aparecerem, a saia verde-bandeira e uma bolsa vermelha criavam um visual alegre, contrastante com a tristeza dos olhos de quem o vestia.
A moça buscou algo na bolsa e retirou de lá o celular. Discou apressada os números e aguardou os mais longos dez segundos. Quando, imagino eu, atenderam do outro lado da linha, começou a contar em soluços o que lhe deixara naquele estado. “Como ele teve coragem de fazer isso comigo? Eu fui a melhor pessoa com quem ele já ficou!”. E por inércia, fiquei triste, porque alguém voltaria a passar os dias sozinha, assim como eu passava há vinte anos.
A chuva era inversamente proporcional ao choro de minha vizinha de cadeira no ponto. Os pingos do céu caíam menos, mas ela parecia cada vez mais em desespero, sem saber o que faria a partir de então. Começar tudo de novo para ter o mesmo fim? Desanimava pensar.
Então, vi uma borboleta amarela se aproximando de onde estávamos cambaleante. Ficou um tempo pairando no ar, como se decidisse qual das duas ali precisava mais de consolo. Escolheu a menina da saia verde e foi pousar bem em seu nariz. A moça sorriu e vi esperança em seu rosto, o que me fez sorrir também. Não importava o que faríamos agora, nem o fim, nem o começo, nem os mil dias sozinhas. O mundo era cheio de amor.