Saturday, February 23, 2008

“Aretha, Sing One For Me!”

Eu estava sentada pacientemente esperando meu ônibus pra casa - qualquer pessoa que estude no mesmo campus que eu e more no ABC sabe como pode ser um martírio esperar o transporte de volta. Eu me distraía reparando na chuva forte que estava caindo, quase uma tempestade, quando chega ao ponto uma garota encharcada e aos prantos.

Aquilo me despertou do meu quase-nirvana e passei a reparar nela: seu par de All Star listrados, sua blusa branca que deixava as alças do sutiã roxo aparecerem, a saia verde-bandeira e uma bolsa vermelha criavam um visual alegre, contrastante com a tristeza dos olhos de quem o vestia.

A moça buscou algo na bolsa e retirou de lá o celular. Discou apressada os números e aguardou os mais longos dez segundos. Quando, imagino eu, atenderam do outro lado da linha, começou a contar em soluços o que lhe deixara naquele estado. “Como ele teve coragem de fazer isso comigo? Eu fui a melhor pessoa com quem ele já ficou!”. E por inércia, fiquei triste, porque alguém voltaria a passar os dias sozinha, assim como eu passava há vinte anos.

A chuva era inversamente proporcional ao choro de minha vizinha de cadeira no ponto. Os pingos do céu caíam menos, mas ela parecia cada vez mais em desespero, sem saber o que faria a partir de então. Começar tudo de novo para ter o mesmo fim? Desanimava pensar.

Então, vi uma borboleta amarela se aproximando de onde estávamos cambaleante. Ficou um tempo pairando no ar, como se decidisse qual das duas ali precisava mais de consolo. Escolheu a menina da saia verde e foi pousar bem em seu nariz. A moça sorriu e vi esperança em seu rosto, o que me fez sorrir também. Não importava o que faríamos agora, nem o fim, nem o começo, nem os mil dias sozinhas. O mundo era cheio de amor.

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Thursday, February 21, 2008

Repetir o erro é humano

“Errar é humano. Repetir no erro é burrice”. Mas e se o erro é consciente? Porque uma pessoa pode muito bem ter entendido as consequências de repetir determinada atitude, mas um impulso maior a leva a fazer de novo. Como quando você assiste a um filme com final triste repetidas vezes e sempre guarda a esperança de que, de repente, o mocinho não se mate ou a mocinha não case com o vilão. Como ler o mesmo livro de novo para mudar a idéia de que o protagonista vai embora cheio de sentimentos mal-resolvidos só para se libertar.

Repetir o mesmo erro não significa não ter aprendido a lição. Às vezes, é simplesmente uma vontade de mudar um final não tão feliz. Uma insistência de quem não entendeu que o tempo não volta.

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Monday, February 18, 2008

Amores de Marco

Sempre fora apaixonado pelas mulheres. Não que gostasse de todas e de nenhuma em especial; antes fosse isso. Havia aquelas que não eram nada além de rostos e corpos bonitos, sim, e essas sempre representaram a maioria. As que se diferenciavam da massa de Barbies não eram tão numerosas, mas lhe traziam confusão o suficiente. Marco não dormia uma noite sequer sem que agradecesse ao universo por não fazer todas as mulheres do mundo interessantes. Seria dor de cabeça demais.

Na tentativa de desfazer os nós mentais, classificava cada mulher de sua vida. Era mais fácil, claro, quando a dita cuja era do grupo denominado Eternas pré-adolescentes. Mas, então, chegava a vez das diferentes…

Havia a Marcela. Quando a conheceu, Marco ficou deslumbrado: nunca havia encontrado outra pessoa que ouvisse metal e também saísse para dançar forró toda terça. Com a convivência, viu que as semelhanças se limitavam aos gostos e interesses pessoais. Estava no jeito de andar da garota: as costas encolhidas e a cabeça baixa deixavam claro o medo constante do mundo.


Era o contrário de Alicia. Os dois queriam fugir pra uma cidade minúscula no Chile e criar os filhos perto do mar. E acreditavam no poder da escolha, eram duros, orgulhosos, geniosos. Mas cada vez que Alicia colocava no rádio do carro de Marco o cd de uma banda powerpop islandesa, ele queria se atirar pela janela.

Nas noites de insônia, Marco pensava que o ideal era juntar Marcela e Alicia. Seria a amante, namorada, amiga, mulher dos sonhos. Uma vez lhe disseram que seria como Marco namorar ele mesmo. E era com esse pensamento que o rapaz sempre se voltava à Nathália.

Ela não era bonita e nem muito simpática. Ele não sabia como a história dos dois começou e muito menos como se tornou aquele filme em preto-e-braco, que era pra terminar quando ele gritou “Me esquece, Nathália”. Assim, sem apelidos e sem exclamações. Ele guardou num canto da memória o olhar da moça; viu de relance um fundo de remorso, até achou que fosse se formar uma lágrima. Ela lhe deu as costas e caminhou determinada, como se soubesse que era observada. Marco ficou esperando que ela olhasse para trás para poder gritar desculpas, pedir que ficasse porque quem não esquecia era ele. Ela nunca olhou e ele nunca esqueceu.

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