Saturday, October 27, 2007

Meta-postagem

Quando eu decidi prestar Jornalismo, um amigo meu, que hoje cursa Direito, disse que tinha vontade de se sentir agente e não mero espectador e transmissor dos fatos. Essa semana concluí, mais do que nunca, que ele subestimou demais o poder de um texto.

Não vou ficar divagando aqui sobre a importância de certas coberturas jornalísticas, nem falar do Caso Watergate. Não quero isso. É que fico pensando nas muitas vezes que chorei lendo uma carta de despedida ou um bilhetinho antigo despretenciosos. Fico pensando em como uma simples frase pode fazer enxergar tudo aquilo que você tinha esquecido. Ou a mensagem de um amigo distante, ou um post no blog de alguém que disse querer cuidar de você, ou um email no começo da tarde.

Se um texto pode mexer com uma pessoa, por que um jornalista não pode escrever de forma a mexer com mais de uma, usando o sentimento mútuo de um grupo de indivíduos?

E por que não posso me fazer entender pelo que escrevo e não posso entender os outros pelo que leio deles? Às vezes um eu-lírico pode ser muito mais real do que o eu que uma pessoa mostra normalmente.

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Monday, October 22, 2007

Jogo da carona?

Percebe de longe o andar tão conhecido, sem saber ao certo de onde. A barba, o cabelo, as roupas: tudo um pouco diferente, mas ainda assim familiar. Os óculos escuros escondiam os olhos que outrora lhe faziam tanto mal. Ia poder passar e fingir que seus olhares não haviam cruzado e que ela nem viu a pessoa sem nome, como já acostumura fazer há anos.

A calçada foi diminuindo a distância conforme os passos ficavam mais firmes para esconder a hesitação. Era como um jogo de espelhos em que a matéria nunca pode passar pro outro lado sem explodir. Matéria e antimatéria destruíam o espelho, o único elo entre os dois universos. E ao mesmo tempo tudo era o contrário e cada metáfora queria dizer o oposto e toda cor caía num daltonismo caótico.

Enquanto ensaiava passar reto, sentiu apertarem seu braço esquerdo e sua pele arrepiou ao toque da antipele.

- O que você está fazendo? Já faz tanto tempo…
- É que eu ainda quero te fazer doer.*

Juntou toda saliva que pôde e cuspiu forte. Saiu andando, puxou seu braço e apertou o passo. Se não fossem as lentes, ele teria cegado. Saliva e antimatéria se corroem sempre.

*Quero colocar essa frase em outro lugar ainda. Por enquanto, fica nesse.

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Thursday, October 11, 2007

O painel eletrônico

Quarta-feira, 19h00. Noite quente, laranja (como sempre) e carregada na cidade. Perto de um tilt no sistema de transportes urbano, os (pseudo)paulistanos ficam presos entre o vir e o ir. No túnel Ayrton Senna, um carro prata ruma à região do ABC por um caminho alternativo ao usual, na tentativa - frustrada, obviamente - de chegar mais cedo. Apesar dos veículos se moverem sofregamente a 25 km/h, um painel eletrônico indica a velocidade máxima permitida: 70 km/h.

- Filha, você não acha um desperdício esse painel? Ao invés de eles colocarem alguma mensagem útil, do tipo “trânsito lento no túnel Ayrton Senna”, “desligue o motor caso haja congestionamento” ou “abra o guarda-chuva ao passar embaixo do Lago do Ibirapuera”, ficam nessa brincadeirinha besta de fazer passar vontade.

Observei melhor o painel. Eu escreveria “lavem suas ramelas de manhã” ou “durmam pelados essa noite”. Muito mais útil.

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Sunday, October 7, 2007

Fragmento

- Sabe o que é ficar cego? É você ver tanto uma coisa, mas tanto, que você não consegue ver mais nada. É uma imagem sozinha te enlouquecer tanto que é como se o resto do mundo desaparecesse naquela hora, porque o resto mesmo não importa mais. Eu não quero ficar cego.

- Então não me deixa te cegar.

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Thursday, October 4, 2007

would you erase me?

- E se você pudesse me apagar? Hein, me diz? Que nem naquele filme…Você me apagaria? Você me apagaria pra nunca mais sentir nostalgia de brincar na grama? Você me arrancaria do seu cérebro pra sempre, mesmo sabendo que daí você nunca mais ia saber o que você realmente procura? Que você não riria do mesmo jeito nunca mais? Que você não sentiria mais frio nenhum na espinha quando caísse uma chuva forte? Nem ia saber a sensação de se jogar mesmo jurando um segundo antes que nunca mais tiraria os pés do chão? E se você nunca mais soubesse o que é ter o dia consertado por um sorriso só? Você me apagaria mesmo assim? E se…

- Eu tenho um BRANCO, entende? Um branco. Todos os “e se”s e reticências foram parar em um universo em que eu não existo.

Levantou do chão onde conversavam e foi embora pensando “Puta pessoa esquizofrênica!”, sem saber se falava sobre a outra ou sobre si.

Posted by emptyroom at 03:07:13 | Permalink | Comments (1) »