Pieguice Sucinta
Percebe que o mundo só fica com tudo no lugar quando meu sorriso se acha no seu, seu sorriso se acha no meu e a gente se acha inteiros, de repente completos num lugar sempre tão vazio.
Percebe que o mundo só fica com tudo no lugar quando meu sorriso se acha no seu, seu sorriso se acha no meu e a gente se acha inteiros, de repente completos num lugar sempre tão vazio.
Por algum motivo desconhecido, você é capturado no meio de sua rotina e levado para um porão escuro. Primeiro, pedem por cooperação gentilmente. Mas não, você não sabe nada, realmente não sabe, mesmo querendo saber, mesmo querendo cooperar. E quando você menos espera, recebe o primeiro soco. Eles gospem em seu rosto e quebram seu nariz. Dão tapa em seus ouvidos e um zunido resolve ser companhia dali em diante. Você leva choques e chutes. Você tem sede, mas o único momento em que tem contato com água é quando lhe afundam a cabeça em um barril. O gosto de sangue fica na boca, enquanto o estômago pede, pelo amor de Deus, um pedaço de pão. Uma migalha, que seja, já que uma fatia já seria pedir demais. Tudo que você escuta são seus próprios gritos de horror. Chega um ponto em que a dor é tanta que nem dói mais. Você não dorme porque o chão é demasiadamente duro e seu corpo está demasiadamente estilhaçado. Usaram faca, revólver, chave-de-fenda, alicate, tesoura, serra. Enfiaram agulhas sob suas unhas e entortaram os dedos de seus pés.
E um dia, também sem explicação, você acorda e a porta está aberta. Ninguém mais aparece, você sabe que eles não vão voltar - ficou tudo entendido em um sonho distante, mas o fato é que você está livre. Mas agora, tudo é escuro e até o pensamento da luz do sol parece machucar.
Quanto tempo demoraria a coragem para atravessar a porta?
Acordei com olheiras por causa da noite mal dormida. Olhei pela janela e vi que as condições do tempo não poderiam estar mais apropriadas para a ocasião: chovia uma garoa fraca, gélida e irritantemente persistente. Desci as escadas de casa e encontrei em cima da mesa as flores que minha mãe foi receber na porta porque eu ainda dormia. No cartão, só as palavras “Bom dia, amor!”. “Bom”, eu duvidava. Seria longo. Muito.
Passei a tarde no cabeleireiro. “Seus olhos estão inchados…Aposto que você não dormiu hoje de ansiedade pelo grande dia, né?”. É. “Grande dia”. Unhas (roídas) feitas; cabelo hidratado, escovado e preso em uma trança bonita; um buquê de lírios; sapato prata de salto alto para combinar com o branco do vestido. Já pronta, me olhei no espelho sem conseguir me lembrar de já ter tido tanta vontade de fugir alguma vez na vida. E as pessoas ao redor sorriam e, com olhares maravilhados, diziam o quão linda eu estava, enquanto a agonia só crescia em mim.
Não sei como entrei no carro, nem como consegui chegar até a porta da igreja. Quando me dei conta, meu pai já pegara meu braço e me olhava cheio de orgulho. As notas de um trio de violinos ecoaram e eu sabia que chegara a hora. Os primeiros passos foram difíceis e o tapete vermelho parecia não ter fim. Cheguei ao altar, onde meu noivo me recebeu, doce e delicado como sempre. Subi dois degraus e olhei para trás.
Ali, na primeira fila, estava ele, sorrindo para mim, ao lado da esposa. E, depois de tantos anos, senti uma lágrima escorrer por meu rosto. A lágrima de todos os erros e de todos os arrependimentos que se resumiam em um só e eram ilustrados por aquela loira ao lado dele. Eu desperdiçara há muito tempo meu único motivo para acreditar em um final realmente feliz.