Wednesday, May 30, 2007

O fim é só ponto final

Minha paixão enterrei do jeito que a encontrei quando me chamaram ao necrotério para reconheceê-la. Estapeada esmurrada esfaqueada com hematomas e um vestido branco com babados que costurei com minhas próprias mãos até surgirem calos. O branco agora havia tomado um tom de rosa conseqüente das tentativas frustradas de tirar o sangue e purificar o pouco superficial que tinha a minha criança. Enterrei-a toda feia e machucada mesmo ainda que se mantivesse criança de vestido novo na noite de Natal. Era ainda criança nova a minha paixão como se encontra na infância o namoro de mãos dadas (somente) e a procura pela loja mais colorida de doces entre vitrines de roupas de médico. E minha vó dizia que crianças viram anjos ao morrerem. Pena que agora sei que existe o limbo e que ela ainda vai sofrer com a própria confusão. Talvez se eu tratasse seus restos como fazem os egípcios sua alma seria livre. Ou quem sabe a minha. Mas não pude fazê-lo. Tentei ordenar a minhas mãos que te trocassem os sapatinhos respingados de sangue. A meus olhos que buscassem o belo universal em você. Mas foi em vão. Tão em vão quanto minha tentativa de salvá-la do destino. Em partes já nascera morta assim como em partes te enterrei viva. Deixei-a deplorável como estava porque limpar seu rosto seria como limpar as mãos do assassino e pentear seus cabelos seria afagar a cabeça da injustiça do mundo dos sentimentos. Dando-lhe a beleza da vida eu mataria o crime que a destruiu e matar tal crime seria destruir a parte de mim que sobrou e renegar todas as lágrimas. Não minha criança. Não te deixo ir embora bela mas espero que vá embora em paz. Com toda a paz que me tiraram no momento em que te fizeram nascer. Vá em paz porque a mim só restou o caos.

Posted by emptyroom at 02:19:37 | Permalink | Comments (5)

Saturday, May 26, 2007

A crise da representatividade e meu pai

Terça à noite, depois do estágio…

- Filha, você não tem nada pra fazer na USP hoje, tem?

- Não, não. Tem uma assembléia, eu acho, mas já cansei delas. Nenhuma vale nada mesmo, no final das contas.

- É que hoje eu não tenho aula por causa da greve.

- Que bizarro! Seu curso é num prédio da FEA. Até a FEA entrou em greve???

- Acho que não. Mas não tem nada a ver com a FEA. Eu fiz uma assembléia sozinho e decidi que estou em greve, já que a FEA não colabora pra eu chegar mais cedo. 

 

Posted by emptyroom at 01:37:30 | Permalink | No Comments »

Monday, May 21, 2007

Pseudo-psicanálise pré-jucana

“As pessoas ficam mais sinceras quando bebem”. Eu já escutei isso muitas vezes e falei mais algumas. Por um tempo, realmente acreditei nessa idéia. Até que veio a última vez que o vinho se encontrou comigo e me fez dizer coisas que considero inverdades, o que me vez ver as besteiras que muitos amigos meus já falaram somente graças ao álcool no sangue.

Eles estavam sendo sinceros? Pra mim, a resposta é “não necessariamente”.

Quando Freud surgiu falando que a mente humana era dividida em três partes - ego, superego e id - ninguém o levou muito a sério. Hoje é esta idéia que me dá a explicação do que acontece quando a embriaguez bate.

É quase consentimento que “o álcool dissolve o superego” - parafraseando uma comunidade do Orkut. Acontece que não é porque agimos mais insistivamente e passionalmente (ou seja, seguindo os desejos do id) que estamos sendo mais sinceros mesmo. Afinal, a mente é formada por três partes e não por uma delas apenas. O ser humano é instinto, mas é também razão. Ninguém é mais verdadeiro porque fala e age sem pensar - características acentuadas pela bebida. É, no máximo, impulsivo. E impulso nunca definiu verdade nenhuma.

I hate them all and I hate myself for hating them. So I drink some more: I love them all. I drink even more: I hate them even more and I did before. - The Strokes

Posted by emptyroom at 03:05:36 | Permalink | Comments (1) »

Thursday, May 10, 2007

Que nem diamante

Não sei ao certo se meu dano sou eu ou se é você
Posted by emptyroom at 02:45:59 | Permalink | No Comments »

Uma resenha perdida

40 minutos esperando num ponto por um ônibus que nem sabia ao certo qual era. Caminhar por entre os cambistas, dizendo que “não, não tenho ingresso, mas também não preciso”. Chegar à sala de imprensa, rezando para seu nome realmente estar na lista. Entrar sem fila, ganhar CD do evento, fazer amigos, ficar na grade. Fora a parte prática e divertida de experimentar a primeira credencial da vida, há muito o que dizer sobre a edição paulista do Abril Pro Rock.

Originalmente ocorrido em Recife (PE), o festival teve, pela primeira vez, shows no Rio de Janeiro e em São Paulo também. Claro que as atrações na cidade natal continuam bem melhores e numerosas do que as edições dos outros Estados, mas nem por isso a pouca divulgação que elas tiveram se justifica. Tanto foi assim que o Via Funchal não chegou nem perto de lotar, mesmo no momento mais esperado quando Lee Perry subiu ao palco.

Quando pedi credencial, foi pela curiosidade. Não esperava que The Film, banda francesa, fosse boa. Muito menos Los Alamos, da Argentina. Lee Perry? “Ahh, o carinha do dub que gravou com o Bob Marley”. Não é meu estilo musical favorito, poxa.

Os músicos da França executaram seus primeiros acordes para meia dúzia de pessoas atentas. Fui até a grade e de lá assisti a três desconhecidos extremamente empolgados tocando para uma platéia nem tão empolgada assim. Uma pena. A banda tinha raiva e sentimento de sobra, além de uma presença de palco um tanto quanto rara entre grupos do novo rock. Sendo sincera, não sabia que eles eram eles mesmo e não os argentinos (puta mania de todo mundo cantar em inglês agora!) até que o vocalista/baixista chamou ao palco um dos integrantes do Los Alamos para acompanhar a próxima música com sua gaita. Lindo.

O gaitista melhorou minha espectativa pro show seguinte. E quando os nossos hermanos entraram no palco, o folk rock latino tomou minha atenção do primeiro ao último segundo. Banjo, gaita, dois violões, guitarra, bateria, percussão, violino (se não me falha a memória), baixo. O clímax foi atingido quando o trio francês foi retribuir o favor, participando de uma música. “Cola de Cascabel” me pôs num transe que eu queria que fosse infinito. Aliás, o show inteiro deles poderia ser infinito que eu nunca reclamaria.

“Lee Perry, quem?”. Não precisava de mais nada, a noite já tinha valido a pena - até porque eu só tinha gastado R$2,30. Foi então que uma das figuras mais bizarras apareceu na minha frente: um velhinho negro, com uma roupa que remetia a trajes chineses tradicionais, pulseiras coloridas e xuxas de cabelo enroladas no microfone, um chapéu de mago cheio de estrelinhas e um par de meias desiguais que a papete deixava mostrar. Um senhor que se mostrou muito simpático e paciente quando uma fã enganou a segurança e foi lhe dar um abraço. Mais paciente ainda quando assinou uns 15 papéis e ingressos do público da primeira fila. E meio surtado quando pulava e brincava com a platéia. A música? Já falei que não era meu estilo favorito, mas sim, era muito boa.

Não preciso nem dizer que o saldo da noite foi extremamente positivo. Não é à toa que o Abril Pro Rock me faz sorrir até agora.

Posted by emptyroom at 02:42:56 | Permalink | Comments (2)