Friday, February 16, 2007

Seriedade pública

Eu tenho sempre uma música na cabeça. De vez em quando, quando sei a letra, fico cantarolando pelos cantos, atormentando as pessoas que estão perto de mim. O que eu sempre quis mesmo era sair cantando alto pela rua, quando tenho que ir sozinha para algum lugar. As poucas vezes que saí cantando baixinho por aí, as pessoas me olhavam com um ar assustado, o que me fez desistir da idéia e deixá-la guardada para os dias em que eu estiver acompanhada - não sei porque, mas a loucura de várias pessoas é mais aceita do que a de uma pessoa só.

Eu não poder cantar pela rua, acaba me levando a uma dúvida maior. Por que raios todo mundo tem que andar com esse ar de neutralidade, com essa expressão vazia no rosto, quando se está sozinho? Acho que eu seria uma pessoa [ainda] mais feliz e empolgada se eu visse pessoas sorrindo por todos os lados. Não entendo porque ninguém demonstra sentimentos quando não tem companhia. Até porque, em momentos desse tipo, você acaba pensando muito mais e pensar demais leva a reviver coisas presas na memória, o que leva você a lágrimas de melancolia, de dor, de saudade ou a sorrisos e gargalhadas abafadas pelo que passou.

Não sei porque todo mundo quer se fazer de sério, se ser criança feliz traz tanta leveza de espírito.

“Os olhos mentem dia e noite a dor da gente”

Posted by emptyroom at 20:35:13 | Permalink | Comments (4)

Saturday, February 10, 2007

Last bitter post

tiny vessels oozed into your neck and formed the bruises that you said you didn’t want to fade, but they did and so did i that day

E de vez em quando bate uma falta, uma saudade do que não foi. Chuva cai lá fora, mas é como se chovesse aqui por dentro também. Uma vez li um livro que contava a história de um anjo que se fortalecia com a água que cai do céu. Se eu ficasse mais forte psicologicamente a cada minuto que chove ultimamente, esse post não existiria.

all i see are dark grey clouds and the distance moving closer with every hour

Tem sim “uma parte que não tinha”, mas é uma parte que já tem faz tempo agora. Uma parte que nunca tive e que talvez eu preferisse não ter ainda. E se o Lacuna Inc. existisse, eu teria nada e tudo para dar para eles apagarem essa parte de mim. É tanta coisa e, ao mesmo tempo, tão pouca. Chega a nem fazer sentido.

so when you ask “was something wrong?” then i think “you’re damn right there is but we can’t talk about it now.”

Sairia por aí com meu guarda-chuva, mas ele está emprestado. Andaria sozinha até a cafeteria mais próxima e tomaria meio litro de uma vez para esquentar das gotas frias que me molharam inteira. Abraçaria na chuva, beijaria na chuva, deixaria todo o meu lado racional calado num canto e me jogaria sem perspectiva nem de vôo e nem de chão.

and we’ll pretend that it meant something so much more, but it was vile and it was cheap

Resta esperar segunda-feira. Abraçar, beijar e me jogar na segurança de quem um ano atrás era estranho. Chegou a hora de voltar pra casa e ver a “família” por lá.

Posted by emptyroom at 01:33:11 | Permalink | Comments (1) »

Friday, February 2, 2007

Cego do Castelo

O moço queria abrir os olhos. “Me deixa abrir os olhos”, ele pedia. “Me deixa abrir, por favor”, ele implorava. Todo mundo o convencia a desistir disso desde um certo dia em que ele acordou com a maior dor de cabeça que já havia experimentado.

“Fica assim que eu te conto o que está acontecendo no mundo. Você não precisa ver por você mesmo. Eu descrevo tudo pra você”. E continuava, “Sente o cheiro doce da torta de chocolate que a vizinha fez. Mais tarde, passaremos lá e vamos comer um pedaço. A praça da cidade está à sua esquerda, os ipês estão floridos e pintam as calçadas de amarelo. O jardins estão ricos agora na primavera. E tem uma moça indo na sua direção. Ela veste um vestido branco com flores rosas, tem um olhar azul penetrante, os cabelos negros, parece a Branca de Neve. Sim, sim, se a Branca de Neve existisse, ela seria exatamente assim.” E o moço sentia as primeiras gotas de chuva de um temporal que estava por vir e quase via o céu escuro acima dele.

Um dia, sentado sozinho no parque da cidade por cinco minutos (porque todas as pessoas que os vigiavam tinham saído para olhar a pescaria no lago), ele resolveu abrir os olhos. O medo invadiu-o só de pensar nisso, mas já passara da hora de deixar de fugir.

Desatou o nó e desenrolou o pano que colocaram nele para que ele não visse mais. Abriu seus olhos, mas a escuridão permaneceu. Tentou tocar, só que não havia nada ali. E então ele entendeu que perdera dois olhos, mas ganhara outros quatro. Restava sentir a chuva tocando o rosto, o cheiro da terra molhada, o gosto da torta de chocolate e ouvir a música ao fundo, tocada na janela da casa verde pela menina solitária.

Posted by emptyroom at 14:24:35 | Permalink | Comments (1) »