Tuesday, December 26, 2006

Pensando em ser roteirista 2

Moça- Você tem mais alguma coisa pra me falar?

Moço- Acho que não. Acho que já falei tudo. Você tem?

(Moça pensa no silêncio: Tenho um milhão de coisas, tenho tanta coisa que nem sei como falar. Tenho que te pedir desculpas até perder a voz e você me aceitar de volta. Tenho que te implorar pra voltar porque nada faz sentido se a gente não está junto e nada fez sentido desde aquele sábado à noite em que eu te disse adeus, tentando ser tão sincera, mas tão sincera que acabei mentindo e perdendo minha própria verdade. Porque minha verdade é o que eu sinto e o que eu sinto é imutável. E agora me dói, me dói ouvir que tem alguém na sua vida, tomando o lugar que eu queria pra mim, o lugar que eu não quis ocupar por ter sido imatura demais pra perceber que o príncipe já tava ali na torre pra me salvar e eu queria continuar dormindo, num mundo de sonhos inexistente. Me deixa voltar, me diz que não é tarde demais, que você ainda sente o que eu sinto, que causo os mesmos sintomas, que você se sente com doze anos de novo quando está comigo e que ninguém mais faz isso com você. Hoje ainda é noite de Natal. Eu só preciso ouvir uma palavra, que aí eu vou saber que as coisas vão voltar pro lugar delas e que não estou sozinha de novo pra consertar minha bagunça porque eu simplesmente não consigo fazer isso desse jeito. Não me faça ir embora, não me faça desistir, não me faça te esquecer de novo. Já fiz isso, mais de uma vez, e voltei pro mesmo lugar e nada deu certo. Você tem que me dar outra chance, porque todas as chances que eu dei pro mundo longe de você foram jogadas fora...)

Moça- Não, não tenho nada. Vamo que eu abro o portão pra você.

 

Claro que desisti de novo. Era só uma cenazinha que me veio na cabeça ontem de madrugada. Se ela não fosse tão real, ia ser mais fácil. Mas 2006 realmente chega a seu fim. Não que nem 2005, porque 2006 não deixa nada pendente. Já gritei o que tinha pra gritar, já falei de inúmeras formas o que eu tentei calar em mim, já fiz besteiras demais, já me arrependi demais pra quem diz que nunca se arrepende de nada. You’ve got to leave it behind. There’s no shame in giving up. Mas ano que vem tudo vai ser diferente…

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Saturday, December 23, 2006

Retrato à meia-noite (ou Como manter-se jovem)

A chuva começava a cair timidamente sob as luzes alaranjadas da rua deserta. Ou quase deserta. Faltava pouco para meia-noite e o ar estava gelando. Ela chega com a mãe, coincidentemente no mesmo horário do pai, voltando de uma festa do escritório. Desce do carro com as chaves para abrir os portões das duas garagens. À direita, vê um casal no portão vizinho.

Eles conversavam calmamente. Havia uma leveza no olhar dos dois, um ar de ordem e ritmo expressado em dois meios sorrisos. As coisas estavam todas em seus respectivos lugares. Os tons pastéis e o balanço do branco estavam perfeitos. Ouve: uma flauta doce. Olhavam um pro outro como se fosse a primeira vez, aproximaram os lábios como se fosse o primeiro beijo, se abraçaram como se tivessem acabado de encontrar o caminho de volta para casa.

Era um casal de adolescentes namorando no portão. Adolescentes de 50 anos, juntos há 30. E todo o ceticismo no mundo pareceu se quebrar quando os sinos da igreja tocaram longe.

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Saturday, December 16, 2006

“Me deixa guardar só essa”

E no meio do processo de “apagamento da memória”, por assim dizer, Joel pede pra deixarem ele guardar só aquela lembrança, só aquela, a mais especial, a que ele mais ama dos últimos dois anos.

Eu pediria pra guardar um sorriso. Um sorriso de cada pessoa que veio e que foi embora. Aquele sorriso que surge num momento inesperado, em meio a uma lágrima, ou timidamente diante da iminência de uma declaração. O sorriso que aparecia quando ele vinha na minha direção pra me dar bom dia - e, inexplicavelmente, meu dia ficava bom. O sorriso dado quando eu juntava minhas coisas e migrava da carteira da frente da sala pra carteira lá no fundo porque eu estava deprimida. Ou aquele que se espelhava no meu sorriso ao contar alguma história nova - ou repetida também, porque tudo parecia um ciclo interminável.

Lembro a noite da minha formatura no colégio. As pessoas sorriam pra mim, diziam “parabéns”, e eu buscando um sorriso só. E eu achei aquele sorriso, pra mais tarde quebrá-lo, como me jurei nunca fazer.

Sabe quando o sentimento fica grande demais por dentro? Aí vem o sorriso. Para expressar ou para mascarar, para enfatizar ou para disfarçar. É quando você gostaria de ter uma filmadora com você, pra gravar aquele momento e ver de novo e de novo e de novo. Pra não perder aquela magia nunca, pra que o sorriso não se desfaça no tempo.

Por mais altos que sejam os muros que você constrói pra ninguém entrar e machucar, os tijolos vão ser pro sorriso sincero como a palha para o lobo naquela antiga fábula. O sorriso é a trança da Rapunzel, é o beijo da Bela Adormecida, o pó mágico da Sininho que faz Peter Pan voar. É o que me fez sobreviver até aqui e o que me faz pensar que, apesar das lágrimas da queda, ainda vale a pena tentar voar.

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Friday, December 15, 2006

Spamers no papel

Ontem, logo que passei pelo partão de casa, abri minha caixa de correio. Quatro malas-direta (se é que é assim que se faz o plural dessa palavra). Amaldiçoei mentalmente; odeio que me lotem de papéizinhos idiotas de propaganda.

Entrei, liguei o computador, abri meu email. Umas dez mensagens novas na caixa de entrada e umas quinze que caíram direto como spams. 

Já pensou se essas pessoas que mandam propaganda por email, resolvessem fazê-lo por correio normal? Sei lá, mas acho que meus avós, assim como meus pais, devem ter vivenciado um pouco essa possibilidade.

Eu amo a Internet e amo ter nascido na década de 80!

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Thursday, December 14, 2006

Ditado II

Se o mundo fosse perfeito, vingança seria um prato que se come cru.
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Wednesday, December 13, 2006

MTV sem o music

No filme Escola do Rock (2003), há uma fala genial, por assim dizer, do personagem Dewey Finn (Jack Black). Ele afirma que o Rock morreu e que a MTV o matou. Na hora, achei muito bom, mas depois me toquei que a MTV, em partes, me fez gostar mais ainda de rock quando eu era mais nova. Tudo bem que sempre passavam clipes bizarros e de mau gosto, mas, principalmente de madrugada, tinha clipes legais também. Se alguém me disser que No Rain, do Blind Melon ou Coffe and TV, do Blur são clipes ruins, favor checar duas vezes. Mesmo Tonight, Tonight, do Smashing Pumpkins, é um exemplo desses clipes legais.

Acontece que semana passada a MUSIC Television, divulgou sua decisão de não passar mais clipes, a não ser na “periferia da programação”. Os dirigentes do canal disseram que querem uma MTV mais televisiva, ao mesmo tempo que vai criar uma rádio própria e investir no MTV Overdrive, cópia MTVzada do Youtube. A justificativa pra praticamente banir aquilo que foi o principal enfoque na programação da emissora em todos os seus anos de existência é que os clipes não cabem mais na televisão, mas sim em diferentes mídias.

Um discurso relativamente convincente pra esconder que a emissora está mudando o foco porque vem perdendo audiência pra PlayTV que, adivinha só, passa clipes em sua programação.

Depois do Plutão ser excluído da categoria de planetas, a MTV sem música entra na listinha de paradigmas quebrados nesse ano de mudanças.

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Tuesday, December 12, 2006

Momento funcionalista

Toda vez que algum capítulo da minha vida não termina do jeito que eu queria, eu fico pensando que era melhor nem ter vivido aquilo. Tudo bem, sempre se tira uma lição de tudo, a gente amadurece, se torna uma pessoa melhor (ou mais rancorosa) e etc. Só que eu sempre pensava que podia ter aprendido a lição de um jeito menos doloroso, o que fazia do capítulo vivido extremamente inútil na minha cabeça.

Acontece que toda vez que surgem problemas, pedras no meio do caminho, toda vez que chove dentro de mim, além de eu ficar horas falando sobre o acontecido, ou não-acontecido, com algum amigo, eu me voltava às palavras escritas. Sempre tive um diário, um caderno, um blog (cronologicamente falando) em que pudesse descarregar os pensamentos. E as horas em que eu mais escrevia eram quando os capítulos terminavam do jeito que eu achava ruim.

Ou seja: por mais inútil que o sofrimento proporcionado por determinadas situações ou pessoas possa ser, sempre vão surgir textos sinceros por causa delas. E as lágrimas e o ódio voltam a ter funcionabilidade.

Se você me fez mal, mas me deu, ao menos, uma frasezinha bonita sequer, você não foi um total nada na minha vida. Agora, se você veio a se tornar isso e nem um mísero texto surge e menos ainda um sorriso, a culpa é toda sua.

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Sunday, December 10, 2006

Ditado

Tem aquela história de “melhor um pássaro na mão do que dois voando”.

O que ninguém fala é que é melhor dois pássaros voando do que não ter pássaro nenhum.

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Saturday, December 9, 2006

Casa minha

Tô há 20 horas seguidas tentando decifrar teu silêncio. O problema é que eu sei que mal começou.

Eu não disse 10% do que eu queria, mas ouvi menos ainda do que esperava. Quando as palavras iam escapando por entre meus lábios, todas elas fizeram muito menos sentido do que faziam dentro da minha cabeça.

De repente, eu voltei à minha formatura do colégio - que, por sinal, está mais distante temporalmente do que emocionalmente - em fevereiro. O frio no estômago, a mão suada, joelhos moles e corpo tremendo. Se te fiz bagunça, fica sabendo que em mim a situação não é muito melhor.

A gente se confunde demais pra ser Rachel e Joey. Já falei: a gente é Rachel e Ross. So tell me you love me, come back and haunt me/ Oh, when I rush to the start.

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Tuesday, December 5, 2006

Às avessas

Às vezes, pode demorar muito tempo pra você tirar a lição sobre algum erro. Demora mais ainda se você resolve insistir nesse erro e tenta consertar as coisas e fica, cegamente, se jogando contra um muro pensando que ali se esconde uma porta já aberta. Enquanto isso, o caminho de volta vai sumindo, como as migalhas de pão de João e Maria, e quando você vê, já está perdido na floresta. E quando você vê, está enjaulado por uma bruxa dentro de uma casa de doces que, obviamente, te atraiu pra ela como uma criancinha que não pode ver chocolate pela frente.

Às vezes, demora pra entender um conceito, pra enxergar a falha, pra perceber de onde vem o vazio. Ficou lá atrás. Não, criança, já ficou tarde pra voltar, as migalhas já foram digeridas pelos passarinhos. Tem outra na sua casa, dormindo na sua cama, pintando as paredes de amarelo, destruindo os porta-retratos com as suas fotos.
 

Bem-vindos à pós-adolescência, quando as coisas só fazem sentido depois de ser tarde demais. Ficou escuro e não tem lua nenhuma brilhando no céu. Era uma estrela-cadente? Seu pedido já foi realizado, toscamente usufruído e já está na vez do próximo. Rumo ao futuro ou à espera? Me diz o caminho de volta no tempo…

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