Como compensar uma longa espera
Primeiro você espera. Espera durante meses para poder ver um show de verdade daquela simples banda de abertura que 70% de 80 mil pessoas mal conheciam. Espera até que os boatos virem notas oficiais. Espera pelo tão longínguo setembro que tardava a chegar. Mas uma hora ele chega.
Daí você espera de novo. Espera até que dêem respostas definitivas, até que a desorganização se organize e se resolva, até que a imprensa seja clara. Espera até encontrar o caminho certo pro lugar certo e entrar. Até ver que a organização era boa, no fim: a casa ficou linda e você está na frente, bem na direção da caixa de som. Espera até que seu corpo sinta cada batida e cada nota do baixo. Espera até que as bandas bizarras de abertura resolvam sair de lá. Até que o calor comece a apertar e o tumulto chegue. Até que você veja que surpresas surgem e que você estava errada no julgamento. Espera pra ouvir um dos melhores conselhos amorosos que existem e que mais se encaixa com você vindo da boca de um vocalista britânico. “Let Go!”.
Depois você espera mais ainda. Espera no caos, no suor, no calor. Até que você perca toda a água que tem no corpo e sua boca não junte mais saliva. Espera até que você veja o sorriso no rosto daquele escocês, ao ouvir milhares de brasileiros cantando numa língua estranha aquilo que ele escreveu. E você sorri junto, compartilhando da mágica do momento. Só sorri porque você esperou tanto que parece não ter restado nem força nem voz. Espera até que os músicos das outras bandas também entrem no palco tocando, enquanto três pessoas se matam na bateria. Até que o auge da mágica chegue.
E daí você fecha os olhos e voa. Voa e esquece a longa espera porque já compensou e compensaria o dobro do sofrimento ainda. Você voa e espera que aquilo nunca acabe.
Preciso dizer que foi lindo?