Era uma vez…
E o mundo parou de girar. Foi só um instante, só por uns minutos. Já era pra eu ter me acostumado à vertigem que me dá aquela presença, mas parece que oito anos não foram o suficiente ainda. Era meu conto-de-fadas. Ali, mais uma vez, esperando que eu fizesse a coisa certa. Mas eu nunca faço.
Já dizia Murphy que, se há milhares de maneiras corretas de se fazer algo para uma única errada, alguém vai fazer, com certeza, a errada. Essa pessoa sou eu. Só que estrago tudo mais de uma vez. É um auto-boicote inconsciente.
Meu conto-de-fadas ali, pronto pra ser realizado. Meu conto-de-fadas se realizando e tudo que consigo é sempre achar uma nova forma de destrui-lo e recriar o “felizes para sempre” em um cenário surrealista no teto do meu quarto. Troco o tapete mágico por um banco gelado, o príncipe com o cavalo branco pela garupa de uma motocicleta, o abraço sob o céu estrelado por um beijo arrancado na chuva, a segurança de um sorriso familiar por uma gargalhada de desespero diante da infinitude do labirinto.
E daí fica só esse estado de todos os sentimentos ao mesmo tempo, essa coisa sem nome, esse caos mental.
Enquanto isso, o sol vai se pondo e o herói vai sumindo no horizonte (porque “heróis nunca morrem, eles desaparecem com o poente”¹). E a mocinha burra, estúpida e imbecil fica pensando nas milhares de razões que ela tinha listado na cabeça pra convencer o herói a ficar. Mas olha lá: o céu já é todo escuro e só tem a luz de “pontinhos de sal que os deuses jogaram no mundo para o devorarem”². Too late, lady. It’s always too late when you got nothing.
¹Mayra Gomes, numa aula de Linguagem qualquer. ² Timão e Pumba, em alguma parte do filme O Rei Leão.