Thursday, September 28, 2006

Sobre o título e a moral

Acho que já deve fazer uns dois anos que meu amigo Xicão decidiu criar esse blog, só que nunca ele ou eu postamos sobre o nome que decidimos colocar. Um dia de semana passado em casa acarreta coisas do tipo posts de meta-blogagem.

Não lembro mais as possibilidades de títulos que havia pro blog. Sei que eu tinha acabado de assistir à peça Avenida Dropsie, baseada nas obras do quadrinista Will Eisner. Era linda. Os diálogos muito bem escritos, os monólogos, o cenário, a chuva (sim, CHUVA!) torrencial que caía no palco: ela mostrava uma solidão coletiva das pessoas na cidade grande, que não se olham nos olhos ao andarem pela rua, que não sentem nada quando passam por alguém rastejando no chão, que vivem em seu mundinho egocêntrico e isolado.

Tinha um personagem nessa peça, acho que era um mendigo, não me lembro bem agora. Sei que o único amigo que ele tinha era uma barata. Ele ficava boa parte do espetáculo agachado no chão, sem deixar ninguém pisar nela e conversando com o insetozinho. Em determinado momento, ele começa a falar pra barata sobre a diferença entre os dois: ela fica feliz só em sobreviver por mais um dia, sem se importar e se perguntar sobre o objetivo disso; já as pessoas nunca se satisfazem só com isso, elas ficam se martirizando, se questionando, se confundindo. Depois ele conclui que o mais triste mesmo é que existem muitas “pessoas-baratas” vivendo por aí…

Enfim, acho que pode até ter ficado uma coisa meio moralista. Mas pra quem se lembra da época do colégio e dos seus “coleguinhas” tudo isso fica bem compreensível.

Ahh e eu lembrei agora que um dos outros personagens da peça acaba pisando na barata…Tá, a peça não tinha um final muito feliz. Foi a primeira vez que fiquei triste porque uma barata tinha morrido.

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Wednesday, September 27, 2006

Sympathy for Keith Richards

Na minha Semana dos Bixos, alguém pintou no muro a frase “Keith Richards é Deus”, enquanto meus recém-encontrados colegas pintaram coisas do tipo “A ECA é mais legal” e a sigla SAPECA (que não vem ao caso o que é, mas é bem representativa se for considerar o que a minha sala é hoje).

Se Keith Richards é Deus ou não, daí já não sei, só sei que ele é imortal. Talvez ele tenha feito um pacto com o demo pra poder se drogar o quanto quisesse sem sofrer uma overdose - hipótese influenciada pelo filme O bebê de Rosemary, ao qual assisti ontem. Já meu pai tem a teoria de que o cara está, na verdade, se desintegrando aos poucos. Um dia, enquanto toca guitarra em um show, seus dedos vão simplesmente começar a cair. Ou então seu corpo vai se transformando em pó, se perdendo na entropia do universo.

Eu realmente espero que meu pai esteja errado e, seja como for, Richards viva por mais algumas décadas. Afinal, alguém tem que continuar chegando bêbado pra gravar um filme da Disney e gritando “Se queriam alguém direito, pegaram a pessoa errada”. Ou então, dizendo que ”a situação mudou muito no mundo das drogas” e que hoje não há nenhum entorpecente que valha a pena ser ingerido, cheirado ou injetado. Fora que, sem ele, não tem mais ninguém também pra subir num coqueiro em Fiji e fazer os Rolling Stones cancelarem shows, tudo por causa de um desvario qualquer.

Enfim, quando eu for velha e tiver meus netinhos, vou contar pra todos eles sobre o rockeiro que foi se desintegrando, mas continuou imortal.

(Agora, pensando assim, fiquei imaginando qual a concentração de álcool que Richards precisa ter no sangue pra ficar bêbado. Deve precisar de Hi-Fi’s pra caramba.)

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Tuesday, September 26, 2006

Letra padrão do mundo corrido

McLuhan escreveu décadas antes do surgimento da Internet sobre uma Aldeia Global que chegaria unindo os homens e ao mesmo tempo os distanciando fisicamente. Com MSN, Orkut, Blogs, Flickers, Flogs, Office e etc, o trabalho dos datilógrafos deve estar ficando restrito, afinal, cada vez menos as pessoas escrevem no velho esquema à mão e à tinta.

Pensando nisso, me veio aquela tão conhecida sensação de nostalgia. Ah, que saudade que me deu da caligrafia dos meus amigos. Daquela letra apertada, do “a” redondinho, do “m” de perninha grande, daquelas letras que eu via todos os dias desde a sexta série, daquelas que me acostumei a ver quando já estava mais velha, da escrita apressada, das rasuras bonitas, da letra caprichada numa carta feita com carinho…

E pensando nas pessoas que surgiram agora, eu percebi que não reconheceria a letra de quase ninguém, e sim o modo de escrever.

Não que eu acredite em horóscopo, mas bem que o meu disse que eu estaria sensível essa semana. Pra ficar carente de caligrafia de amigos, eu devo estar mesmo.

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Thursday, September 21, 2006

Praga de mãe pega…

…e bem que a minha disse que já tinha começado tudo errado.

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Sunday, September 17, 2006

Como compensar uma longa espera

Primeiro você espera. Espera durante meses para poder ver um show de verdade daquela simples banda de abertura que 70% de 80 mil pessoas mal conheciam. Espera até que os boatos virem notas oficiais. Espera pelo tão longínguo setembro que tardava a chegar. Mas uma hora ele chega.

Daí você espera de novo. Espera até que dêem respostas definitivas, até que a desorganização se organize e se resolva, até que a imprensa seja clara. Espera até encontrar o caminho certo pro lugar certo e entrar. Até ver que a organização era boa, no fim: a casa ficou linda e você está na frente, bem na direção da caixa de som. Espera até que seu corpo sinta cada batida e cada nota do baixo. Espera até que as bandas bizarras de abertura resolvam sair de lá. Até que o calor comece a apertar e o tumulto chegue. Até que você veja que surpresas surgem e que você estava errada no julgamento. Espera pra ouvir um dos melhores conselhos amorosos que existem e que mais se encaixa com você vindo da boca de um vocalista britânico. “Let Go!”.

Depois você espera mais ainda. Espera no caos, no suor, no calor. Até que você perca toda a água que tem no corpo e sua boca não junte mais saliva. Espera até que você veja o sorriso no rosto daquele escocês, ao ouvir milhares de brasileiros cantando numa língua estranha aquilo que ele escreveu. E você sorri junto, compartilhando da mágica do momento. Só sorri porque você esperou tanto que parece não ter restado nem força nem voz. Espera até que os músicos das outras bandas também entrem no palco tocando, enquanto três pessoas se matam na bateria. Até que o auge da mágica chegue.

E daí você fecha os olhos e voa. Voa e esquece a longa espera porque já compensou e compensaria o dobro do sofrimento ainda. Você voa e espera que aquilo nunca acabe.

Preciso dizer que foi lindo?

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Saturday, September 16, 2006

Olhos de Capitu

Depois de alguns dias em um planeta estranho, em uma espécie de universo paralelo e cor-de-rosa, a realidade me tragou de volta violentamente. Enxergar de novo foi um soco no estômago, vindo de uma pessoa que esbanjava um sorriso no rosto após dizer “Seja bem-vinda ao lar mais uma vez!”.

De qualquer forma, continuo nem tão fraca quanto pensam que eu sou e nem tão forte quanto eu finjo ser.

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Wednesday, September 13, 2006

Emprestado

O texto a seguir não me pertence, apesar da bizarra sensação de que o que está escrito se refere a mim (narcisismo pouco é besteira). Sei que faz tempo que não posto, mas resolvi colocar isso aqui porque acho que foi muito bem escrito. Os créditos vão todos pra um amigo que será meu colega de profissão.

“Dessa vez eu tenho certeza: você me enganou, e também está enganado.
Eu não te enganei, você simplesmente não aceitou o fato de sua marionete fazer o que quiser. Não tenho cordas! Sou Pinóquio de nariz curto, e não quero ser de verdade pra te agradar, quero ser real porque eu preciso.
Fui o primeiro do seu teatro; você a cria cada dia novos bonecos que se movem apenas de acordo com o seu interesse. Enquanto fui cego, cheguei a concordar com você. Pena que minha liberdade veio não como resultado de uma fuga, e sim do seu lado. De repente você descobre que as cordas sumiram e eu descubro que terei que continuar a aturar e ver você a criando novos bonecos.
Cobaia, fui sim sua cobaia sem saber. Tão moldado que não sei onde me perdi, mas aos poucos estou me encontrando. Acho que não somos amigos, nunca fomos, você queria me manipular, e eu queria te agradar por pena. Pura pena. Você tem a maior coleção de bonecos, não precisa mais de mim. Ótimo, fico muito feliz por isso. Seus bonecos novos são muito belos.
Até agora, nenhuma mentira, meu nariz continua pequeno. Mentir é feio. Aprendi isso enquanto mentia pra mim mesmo a seu respeito. Não imaginava que você pudesse me enganar. Estava enganado, assim como você estava: Não somos amigos, nem “mais” do que isso. Somos criador e criatura. Mas não amei meu criador. Pois você mesmo, o criador, é ateu. Não creio em você, nem você mesmo.

(Cria e Atura, do Blog do Rodrigo)

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Saturday, September 2, 2006

Era uma vez…

E o mundo parou de girar. Foi só um instante, só por uns minutos. Já era pra eu ter me acostumado à vertigem que me dá aquela presença, mas parece que oito anos não foram o suficiente ainda. Era meu conto-de-fadas. Ali, mais uma vez, esperando que eu fizesse a coisa certa. Mas eu nunca faço.

Já dizia Murphy que, se há milhares de maneiras corretas de se fazer algo para uma única errada, alguém vai fazer, com certeza, a errada. Essa pessoa sou eu. Só que estrago tudo mais de uma vez. É um auto-boicote inconsciente.

Meu conto-de-fadas ali, pronto pra ser realizado. Meu conto-de-fadas se realizando e tudo que consigo é sempre achar uma nova forma de destrui-lo e recriar o “felizes para sempre” em um cenário surrealista no teto do meu quarto. Troco o tapete mágico por um banco gelado, o príncipe com o cavalo branco pela garupa de uma motocicleta, o abraço sob o céu estrelado por um beijo arrancado na chuva, a segurança de um sorriso familiar por uma gargalhada de desespero diante da infinitude do labirinto.

E daí fica só esse estado de todos os sentimentos ao mesmo tempo, essa coisa sem nome, esse caos mental.

Enquanto isso, o sol vai se pondo e o herói vai sumindo no horizonte (porque “heróis nunca morrem, eles desaparecem com o poente”¹). E a mocinha burra, estúpida e imbecil fica pensando nas milhares de razões que ela tinha listado na cabeça pra convencer o herói a ficar. Mas olha lá: o céu já é todo escuro e só tem a luz de “pontinhos de sal que os deuses jogaram no mundo para o devorarem”². Too late, lady. It’s always too late when you got nothing.

 

¹Mayra Gomes, numa aula de Linguagem qualquer. ² Timão e Pumba, em alguma parte do filme O Rei Leão.

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