O presente que não é
Eu me peguei pensando em reviravoltas. Reviravoltas e saudades. Sim, porque cada reviravolta que vira, leva embora o que era antes e traz o novo que nunca teve igual. Ou teve, porque reviravolta não tem que ser inédita. Mas ela leva embora, sempre leva. Traz mudança e destroi o castelo de areia que antes estava ali. O castelo de areia que se constroi com o presente, com as coisas que tomamos como certas e constantes, estáveis.
A reviravolta às vezes pode até ser esperada. Você sabe que ela vai chegar, sabe que tudo vai mudar, mas nem por isso fica mais pronto para a mudança. Você se apega ao presente, mesmo sem querer, porque sabe que ele passa, que ele é mutante como as dunas ao vento. E quando menos percebe, uma casa passageira vira lar, um país estrangeiro vira seu, uma paisagem vira o quadro fixado na retícula dos seus olhos e você está condenado a procurá-la eternamente, onde quer que vá – mas ela nunca estará.
A gente se apega ao presente e faz dele tatuagem, como que dizendo para que ele nunca vá, para que ele nunca mude. E fecha os olhos forte, rezando, torcendo, implorando ao universo que não, por favor, não traga a reviravolta pré-programada. Me deixa viver esse momento mais um pouco, me deixa ficar aqui até criar mais raízes, até deixar de me incomodar com as lacunas, até que todos os problemas que vejo se tornem meus.
Mas a reviravolta vem. E tudo que sobra é saudade. E, em uma noite de domingo, assim, de repente, você se pega pensando em reviravoltas.
Reviravoltas e saudades.