Monday, September 27, 2010

O presente que não é

Eu me peguei pensando em reviravoltas. Reviravoltas e saudades. Sim, porque cada reviravolta que vira, leva embora o que era antes e traz o novo que nunca teve igual. Ou teve, porque reviravolta não tem que ser inédita. Mas ela leva embora, sempre leva. Traz mudança e destroi o castelo de areia que antes estava ali. O castelo de areia que se constroi com o presente, com as coisas que tomamos como certas e constantes, estáveis.

A reviravolta às vezes pode até ser esperada. Você sabe que ela vai chegar, sabe que tudo vai mudar, mas nem por isso fica mais pronto para a mudança. Você se apega ao presente, mesmo sem querer, porque sabe que ele passa, que ele é mutante como as dunas ao vento. E quando menos percebe, uma casa passageira vira lar, um país estrangeiro vira seu, uma paisagem vira o quadro fixado na retícula dos seus olhos e você está condenado a procurá-la eternamente, onde quer que vá – mas ela nunca estará.

A gente se apega ao presente e faz dele tatuagem, como que dizendo para que ele nunca vá, para que ele nunca mude. E fecha os olhos forte, rezando, torcendo, implorando ao universo que não, por favor, não traga a reviravolta pré-programada. Me deixa viver esse momento mais um pouco, me deixa ficar aqui até criar mais raízes, até deixar de me incomodar com as lacunas, até que todos os problemas que vejo se tornem meus.

Mas a reviravolta vem. E tudo que sobra é saudade. E, em uma noite de domingo, assim, de repente, você se pega pensando em reviravoltas.

Reviravoltas e saudades.

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Friday, September 3, 2010

Saudades, sempre ela

Quando estava em Moçambique, principalmente no último mês, a saudade de casa apertava tanto no peito que eu mal conseguia prestar atenção no mundo à minha volta. Não me lembro de ter dado uma última espiada no meu quarto, na escola onde trabalhava, não abracei apertado quem eu mais queria. Não dei uma última olhada, como Bob Dylan sugeria, para ver a terra mágica onde eu vivi por seis meses e dizer adeus. Só a dor de estar longe que me importava, só o anseio de ir embora.

Mas agora, há um mês longe de Moçambique, há pouco mais de duas semanas em terras brasileiras, sinto falta dessa despedida que não tive. Um vazio me bate no peito de olhar as fotos, de pensar naquelas casas de barro e de bambu, nas pessoas me saudando sorrindo mesmo sem nem me conhecer, na alegria e simplicidade daquele povo de promessas fáceis e da vida que se leva ali.

Não sei porque isso agora, não sei o que me dá. Quando estava lá, só pensava em como queria transporte público, comida decente, bom atendimento. E tenho tudo isso de volta, mas me falta algo. Algo que perdi em solos africanos e lá deixei. A África roubou um pedaço de mim – ou talvez eu tenha deixado lá de presente, como garantia de que ela não me esqueceria e de que talvez um dia voltasse para pegar aquilo de volta e me tornar a ser completa novamente.

E nessa hora, eu me lembro de Mia Couto…

“Hoje eu sei: África rouba-nos o ser. E nos vaza de maneira inversa: enchendo-nos de alma”.

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Tuesday, July 29, 2008

Memória fotográfica

A tarde toda passou mais lenta do que os últimos quatro meses. Eles foram tão rápidos que nem vi direito. Nem pude guardar com todos os detalhes a imagem dele segurando o travesseiro sobre os olhos para impedir a luz da televisão ligada de atrapalhar seu sono tardio. E o jeito como os lábios ficavam à mostra, me chamando, como sempre foi, desde que me lembro. Desde quando não podiam me chamar e eu não podia responder ao chamado.

Não guardei direito também as feições do rosto dele iluminado pela luz improvisada de um celular – só porque o que conversávamos era tão grande que os olhos se faziam necessários para que as frases se fizessem completas. Da mesma forma mal-iluminada que estava naquela sala escura, onde beijo nenhum aconteceu porque o físico já era aos poucos transcendido, antes mesmo de ter vez.

E a imagem do físico chegando me some também cada vez que procuro lembrar. Não que eu não lembre, eu lembro, eu sinto ainda como agora. É só minha vontade de querer guardar comigo todo detalhe, todo centímetro dele comigo, todo ruído de risada, toda sílaba de declaração. Meu impulso por ter tudo ao mesmo tempo, por medo de que acabe e depois eu não possa mais nem lembrar.

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Monday, March 10, 2008

Forget, Forgive, Forget

No fundo, no fundo, eu sempre sei no que estou me metendo. Desde quando eu estava no jardim, com cinco anos, e falei pro menino que eu gostava dele, atrás das roseiras. Desde quando eu contei pro meu irmão que não existia Papai Noel. Desde quando troquei as conversas bobas sobre coisas cor-de-rosa das amiguinhas pelas discussões sobre Cavaleiros do Zodíaco.

E quando eu deixava me virarem de cabeça pra baixo só porque eu achava simbólico. E quando eu fiz que queria de novo só pra provar pra mim mesma que podia ter de volta. E quando ignorei Mutantes e me joguei no funk e no álcool e no desconhecido. E quando deixei a chuva me empurrar pro braços de quem era encrenca na certa. E quando falei falas de cinema no estacionamento. E quando fiquei esperando ver aquele nome na tela do computador.

É, eu sempre sei. Mas às vezes é mais fácil de me perdoar se finjo que não sabia.

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Saturday, February 23, 2008

“Aretha, Sing One For Me!”

Eu estava sentada pacientemente esperando meu ônibus pra casa – qualquer pessoa que estude no mesmo campus que eu e more no ABC sabe como pode ser um martírio esperar o transporte de volta. Eu me distraía reparando na chuva forte que estava caindo, quase uma tempestade, quando chega ao ponto uma garota encharcada e aos prantos.

Aquilo me despertou do meu quase-nirvana e passei a reparar nela: seu par de All Star listrados, sua blusa branca que deixava as alças do sutiã roxo aparecerem, a saia verde-bandeira e uma bolsa vermelha criavam um visual alegre, contrastante com a tristeza dos olhos de quem o vestia.

A moça buscou algo na bolsa e retirou de lá o celular. Discou apressada os números e aguardou os mais longos dez segundos. Quando, imagino eu, atenderam do outro lado da linha, começou a contar em soluços o que lhe deixara naquele estado. “Como ele teve coragem de fazer isso comigo? Eu fui a melhor pessoa com quem ele já ficou!”. E por inércia, fiquei triste, porque alguém voltaria a passar os dias sozinha, assim como eu passava há vinte anos.

A chuva era inversamente proporcional ao choro de minha vizinha de cadeira no ponto. Os pingos do céu caíam menos, mas ela parecia cada vez mais em desespero, sem saber o que faria a partir de então. Começar tudo de novo para ter o mesmo fim? Desanimava pensar.

Então, vi uma borboleta amarela se aproximando de onde estávamos cambaleante. Ficou um tempo pairando no ar, como se decidisse qual das duas ali precisava mais de consolo. Escolheu a menina da saia verde e foi pousar bem em seu nariz. A moça sorriu e vi esperança em seu rosto, o que me fez sorrir também. Não importava o que faríamos agora, nem o fim, nem o começo, nem os mil dias sozinhas. O mundo era cheio de amor.

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Thursday, February 21, 2008

Repetir o erro é humano

“Errar é humano. Repetir no erro é burrice”. Mas e se o erro é consciente? Porque uma pessoa pode muito bem ter entendido as consequências de repetir determinada atitude, mas um impulso maior a leva a fazer de novo. Como quando você assiste a um filme com final triste repetidas vezes e sempre guarda a esperança de que, de repente, o mocinho não se mate ou a mocinha não case com o vilão. Como ler o mesmo livro de novo para mudar a idéia de que o protagonista vai embora cheio de sentimentos mal-resolvidos só para se libertar.

Repetir o mesmo erro não significa não ter aprendido a lição. Às vezes, é simplesmente uma vontade de mudar um final não tão feliz. Uma insistência de quem não entendeu que o tempo não volta.

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Monday, February 18, 2008

Amores de Marco

Sempre fora apaixonado pelas mulheres. Não que gostasse de todas e de nenhuma em especial; antes fosse isso. Havia aquelas que não eram nada além de rostos e corpos bonitos, sim, e essas sempre representaram a maioria. As que se diferenciavam da massa de Barbies não eram tão numerosas, mas lhe traziam confusão o suficiente. Marco não dormia uma noite sequer sem que agradecesse ao universo por não fazer todas as mulheres do mundo interessantes. Seria dor de cabeça demais.

Na tentativa de desfazer os nós mentais, classificava cada mulher de sua vida. Era mais fácil, claro, quando a dita cuja era do grupo denominado Eternas pré-adolescentes. Mas, então, chegava a vez das diferentes…

Havia a Marcela. Quando a conheceu, Marco ficou deslumbrado: nunca havia encontrado outra pessoa que ouvisse metal e também saísse para dançar forró toda terça. Com a convivência, viu que as semelhanças se limitavam aos gostos e interesses pessoais. Estava no jeito de andar da garota: as costas encolhidas e a cabeça baixa deixavam claro o medo constante do mundo.


Era o contrário de Alicia. Os dois queriam fugir pra uma cidade minúscula no Chile e criar os filhos perto do mar. E acreditavam no poder da escolha, eram duros, orgulhosos, geniosos. Mas cada vez que Alicia colocava no rádio do carro de Marco o cd de uma banda powerpop islandesa, ele queria se atirar pela janela.

Nas noites de insônia, Marco pensava que o ideal era juntar Marcela e Alicia. Seria a amante, namorada, amiga, mulher dos sonhos. Uma vez lhe disseram que seria como Marco namorar ele mesmo. E era com esse pensamento que o rapaz sempre se voltava à Nathália.

Ela não era bonita e nem muito simpática. Ele não sabia como a história dos dois começou e muito menos como se tornou aquele filme em preto-e-braco, que era pra terminar quando ele gritou “Me esquece, Nathália”. Assim, sem apelidos e sem exclamações. Ele guardou num canto da memória o olhar da moça; viu de relance um fundo de remorso, até achou que fosse se formar uma lágrima. Ela lhe deu as costas e caminhou determinada, como se soubesse que era observada. Marco ficou esperando que ela olhasse para trás para poder gritar desculpas, pedir que ficasse porque quem não esquecia era ele. Ela nunca olhou e ele nunca esqueceu.

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Wednesday, December 26, 2007

a chegada é sempre mais lenta que a partida

nunca sei por onde começar a falar, sempre travo, me censuro, me calo, repreendo, não por insegurança, mas por aquele monstrinho que me habita e é geralmente confundido com orgulho. não entendo porque tem gente que me vê como mistério, não é preciso ser nem um pouco gênio pra saber como funciona minha cabeça. eu digo sim, quando na verdade queria dizer não, não por submissão ou medo ou insegurança, passo um pouco longe do conceito amélia de ser. digo sim quando queria dizer não porque, em algum lugar da minha mente perturbada, guardo a visão distorcida de que ele que devia dizer não antes de mim, antecipando minha resposta e escolhendo aquilo que, obviamente, ele sabe que vou preferir. dou de ombros, me faço de indiferente e digo “vai”; vai, mas vai logo antes que eu mude de opinião, e a pessoa vai e eu fico perdida, sem chão e me perguntando por que raios eu não pedi que ela ficasse, só mais um tempo, só mais um pouco pra eu não sufocar tão logo. mas, olha só, o natal já foi, daqui a pouco é ano novo, depois vem o carnaval e tudo mundo esquece a vida, esquece as dores e brinca de fazer de conta de que o amanhã não vai chegar nunca e muito menos a próxima segunda-feira. mas a segunda chega e a sexta e – maldita sexta. o dia sempre chega, por mais distante que ele pareça e daí se você não diz logo “fica, pelo bem que há no mundo, fica porque senão eu me desfaço” você vai ter um natal ruim. e então só resta imaginar que num universo paralelo, você correu até o aeroporto depois da usp leste, caiu de joelhos e, em lágrimas, implorou “fica”. e ele te carregou no colo, que nem criança, até em casa.
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Monday, December 24, 2007

Melancolia Natalina

Não consigo medir o tamanho da inveja que sinto de Paris agora que a cidade te abraça enquanto meus braços se encontram no abraço mais vazio que já experimentei.


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Sei que é pouco, mas é só o que tenho ânimo de escrever no momento.

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Thursday, November 8, 2007

Em potencial

Eu e a minha mania de não dizer nos damos muito bem, o mundo que não entende. É tudo material arquivado para literatura: um dia escrevo um romance, daqueles bem bonitos e melosos de que você gosta, com todos os diálogos que guardei pra mim.
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