nunca sei por onde começar a falar, sempre travo, me censuro, me calo, repreendo, não por insegurança, mas por aquele monstrinho que me habita e é geralmente confundido com orgulho. não entendo porque tem gente que me vê como mistério, não é preciso ser nem um pouco gênio pra saber como funciona minha cabeça. eu digo sim, quando na verdade queria dizer não, não por submissão ou medo ou insegurança, passo um pouco longe do conceito amélia de ser. digo sim quando queria dizer não porque, em algum lugar da minha mente perturbada, guardo a visão distorcida de que ele que devia dizer não antes de mim, antecipando minha resposta e escolhendo aquilo que, obviamente, ele sabe que vou preferir. dou de ombros, me faço de indiferente e digo “vai”; vai, mas vai logo antes que eu mude de opinião, e a pessoa vai e eu fico perdida, sem chão e me perguntando por que raios eu não pedi que ela ficasse, só mais um tempo, só mais um pouco pra eu não sufocar tão logo. mas, olha só, o natal já foi, daqui a pouco é ano novo, depois vem o carnaval e tudo mundo esquece a vida, esquece as dores e brinca de fazer de conta de que o amanhã não vai chegar nunca e muito menos a próxima segunda-feira. mas a segunda chega e a sexta e - maldita sexta. o dia sempre chega, por mais distante que ele pareça e daí se você não diz logo “fica, pelo bem que há no mundo, fica porque senão eu me desfaço” você vai ter um natal ruim. e então só resta imaginar que num universo paralelo, você correu até o aeroporto depois da usp leste, caiu de joelhos e, em lágrimas, implorou “fica”. e ele te carregou no colo, que nem criança, até em casa.